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Congresso Internacional Luso-Brasileiro 100 Orpheu - 02/06

“Tudo o que eles tocam, levanta voo à nossa frente”. Assim o crítico e filósofo Eduardo Lourenço um dia descreveu o impacto que o grupo modernista português vem exercendo sobre a produção artística e literária da contemporaneidade, desde o seu advento, com a publicação da Revista Orpheu. Defini-lo perentoriamente como “autêntica revolução poética, sem paralelo na história literária portuguesa” foi um acerto visionário, de modo que, às vésperas de seu primeiro centenário, estamos ainda a colher os frutos dessa virada, disseminados para muito além da lusofonia. Procurando celebrar a data, o CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), o LEPEM (Laboratório de Estudos de Poéticas e Ética na Modernidade, da Universidade de São Paulo), e o IECCPMA (Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes) irão organizar conjuntamente o Congresso Internacional Luso-Brasileiro 100 Orpheu — que decorrerá, em Portugal, na Fundação Calouste Gulbenkian e no Centro Cultural de Belém (março de 2015) e, no Brasil, na Universidade de São Paulo e na PUC de São Paulo (maio de 2015) — 100 anos depois do lançamento da revista literária. Trata-se, afinal, de, com a colaboração e a presença já confirmada de reconhecidos escritores, professores e investigadores (Arnaldo Saraiva; Eduardo Lourenço; Ellen Sapega; Ettore Finazzi-Agrò; Fernando Cabral Martins; Fernando Guimarães; Fernando Pinto do Amaral; George Monteiro; Gonçalo M. Tavares; Jerónimo Pizarro; José Carlos Seabra Pereira; José-Augusto França; Leyla Perrone-Moisés; Lídia Jorge; Maria Helena Nery Garcez; Mário Cláudio; Miguel Real; Onésimo Teotónio Almeida; Patrick Quillier; Perfecto Cuadrado Fernandéz; Pierre Rivas; Raul Rosado Fernandes; Richard Zenith; Teolinda Gersão; Teresa Rita Lopes; Tolentino de Mendonça; Tom Earle, entre muitos outros), refletir sobre a plêiade de escritores e artistas cuja produção foi marcada profundamente por uma experimentação estética e literária: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, António Ferro, Amadeo de Sousa-Cardoso, Santa-Rita Pintor, Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho, Alfredo Pedro Guisado, Armando César Cortes-Rodrigues, Ângelo de Lima, Raul Leal, e todos os que, balizados pelo timbre das obras que estes legaram à posteridade, aprofundaram a descontinuidade moderna, numa cadeia de acontecimentos que ainda hoje persistem na memória coletiva não só luso-brasileira, mas também europeia. Na sequência desse raciocínio, e atendendo à enorme importância e peso institucional deste Congresso, a Comissão Organizadora empreende esforços no sentido de congregar especialistas e críticos renomados de todas as partes do mundo, como também escritores, poetas e artistas que deponham e reflitam sobre o impacto e influência que a geração modernista portuguesa causou e vem causando no campo artístico e, mais especificamente, no estético-literário. Para além disso, considerará ainda, na Comissão de Honra Institucional, com a presença de diversas Instituições portuguesas e brasileiras ligadas à cultura e à arte de modo geral, bem como de Universidades e Centros de Pesquisa cujos representantes e especialistas promovam o mais fecundo debate. Concebendo-se este Congresso Internacional como oportunidade única de intensificar os laços históricos e culturais entre Brasil e Portugal, procurar-se-á, assim — entre conferências plenárias, comunicações, mesas redondas, painéis temáticos, exposições, programas artísticos paralelos de teatro, concertos, passeios literários, etc. —, refletir amplamente sobre um legado comum cuja permanência o próprio Fernando Pessoa, em 1915, prenunciava: «Na mitologia dos antigos, que o meu espírito radicalmente pagão se não cansa nunca de recordar, numa reminiscência constelada, há a história de um rio, de cujo nome apenas me entrelembro, que, a certa altura do seu curso, se sumia na areia”. Aparentemente morto, ele, porém, mais adiante — milhas para além de onde se sumira — surgia outra vez à superfície, e continuava, com aquático escrúpulo, o seu leve caminho para o mar». Será também por aí que o Congresso Internacional Luso-Brasileiro 100 Orpheu permitirá continuar esse “rio” de que Pessoa falava; e tão importante quanto os desígnios substanciais subjacentes à realização do Congresso — a (re)avaliação da Geração de Orpheu, promovendo novas pistas, preenchendo “lugares” de leituras — são os esforços para atingir um “mar”, que, no caso, se consubstancia no profundar da relação entre dois países, entre duas identidades, intimamente unidos pela Língua Portuguesa — a mesma, afinal, que Fernando Pessoa um dia considerou uma das três línguas que permaneceriam no futuro.